segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Discutindo Apropriação Cultural


Comumente o conceito de apropriação cultural é definido como “a adoção indevida de elementos específicos de um determinada cultura por membros de outra cultura". Mas não é tão simples assim, afinal é antropologicamaente confirmado que diferentes grupos sociais promovem intercambios culturais e isso é uma das formas de se promover o dinamismo da cultura.
Se a troca cultural entre povos aparece como parte de sua formação cultural em que momento ela se torna "apropriação cultural"?
Historicamente são muitos os povos que sofreram com a apropriação cultural, populações ameríndias e africanas são os exemplos mais notados, principalmemte durante a colonização europeia. Mas atualmente o debate que se levantou nas redes sociais envolve especialmente a população negra brasileira. É compreensivel que o tema cause tanta polêmica, afinal racismo no Brasil é um assunto espinhoso. No país da Democracia racial quem quer ser racista? E devemos isso ao modelo de formação social do brasileiro que buscou na falácia da democracia racial argumentos para negação e inferiozação da negritude e de tudo que deriva dela.
E isso tudo tem origem em argumentações construídas por teóricos reconhecidos mundialmente. Por exemplo, Hegel afirmava que a África era um continente sem História. Kant afirmava existir uma natureza distinta, essência, entre Brancos, Negros e Chineses que lhes reservava diferentes “regras de julgamento” que “preexistiam à suas experiências. Para Kant, essa “essência” diferenciada revelaria uma “natureza” limitada que impediria a pessoa negra de estabelecer qualquer distinção “acima do ridículo” enquanto entre o Branco, mesmo entre àqueles oriundos da plebe, poderia se observar a “força de dons excelentes”. Esses exemplos demostram que à constituição da sociedade moderna e da humanidade elegeram o homem branco europeu como expressão universal do gênero humano e representantes da razão. De acordo Deivison Mendes Faustino (2013), "O Branco se torna universal, mas “o Negro não é um Homem... é um homem negro”, uma mulher branca é apenas uma mulher, mas a negra é a "Mulher Negra". É possível pensar em música indígena, cabelo afro, cosmovisão africana, cultura negra, mas nunca em música branca, cultura branca. O branco, a cultura branca, ou ocidental, ganham status de universalidade e não precisam ser especificadas."
Se os elementos culturais produzidos por pessoas brancas tem carater universal isso reflete em notória visibilidade e aceitação social. Já o que é culturalmente produzido pela população negra só ganha destaque quando são embraquecidos, ou seja, são apresentados à sociedade por pessoas brancas. Por isso, a discussão sobre a apropriação cultural surge como um problema estrutural e que tem no racismo seu eixo central.
Neste sentido, é importante compreender que a apropriação cultural é perigosa pois retira o sentido cultural do elemento apropriado e o tranforma em mero objeto comercial, invisibilizando quem realmente produziu. Djamila Ribeiro (2016) problematiza muito bem o assunto: "Por que isso é um problema? Porque esvazia de sentido uma cultura com o propósito de mercantilização ao mesmo tempo em que exclui e invisibiliza quem produz. Essa apropriação cultural cínica não se transforma em respeito e em direitos na prática do dia-a-dia. Mulheres negras não passaram a ser tratadas com dignidade, por exemplo, porque o samba ganhou o status de símbolo nacional. E é extremamente importante apontar isso: falar sobre apropriação cultural significa apontar uma questão que envolve um apagamento de quem sempre foi inferiorizado e vê sua cultura ganhando proporções maiores, mas com outro protagonista."E é relevante lembrar que a apropriação cultural também atinge indígenas, quando por exemplo, tem sua arte vendida a preços altos em lojas elitizadas enquanto seus produtores sofrem silencimento do genocídio indigina promovido pelo Estado, mídia e agronegócio.
Por isso, quando se trata de racismo e apropriação cultural é extremente importante ser cuidadoso e não tratar um tema importante de forma tão simplista. Racismo é assunto sério e não deve ser reduzido a achismo e opniões pessoais.

Referências
"A emoção é negra, a razão é helênica? Considerações fanonianas sobre a (des)universalização do “Ser” negro". Deivison Mendes Faustino. 2013
"Apropriação cultural é um problema do sistema, não de indivíduos". Djamila Ribeiro. 2016

Primeira Mulher Negra Engenheira do Brasil


Enedina Alves Marques, formou-se em Engenharia Civil em 1945 pela Universidade Federal do Paraná, e entrou para a história como a primeira mulher a se formar em engenharia no estado e a primeira engenheira negra do Brasil.
Nascida em Curitiba, Paraná, em 13 de janeiro de 1913, filha de Paulo Marques e Virgília Alves Marques. Nos anos 1920, Dona Duca, como era conhecida a mãe de Enedina, trabalhou para a família do delegado e major Domingos Nascimento Sobrinho, radicado na Rua Vital Brasil, esquina com a Rápida, no bairro Portão. A casa da família – um exemplar de madeira, com varandas e lambrequins – foi desmontada e transferida para o Juvevê e, hoje, abriga a sede regional do Instituto Histórico Iphan.
Enedina estudou colégios particulares, pago por Domingos para que ela fizesse companhia a sua filha. Então, entre 1925 e 1926, Enedina é alfabetizada na Escola Particular tocada pela professora Luiza Dorfmund. No ano seguinte, ingressou na Escola Normal, onde permanece até 1931. Entre 1932 e 1935, formou-se no curso Normal. Junto com Isabel, Enedina passa a trabalhar como professora no interior do estado. Atuou em cidades como Rio Negro, São Mateus do Sul, Cerro Azul, Campo Largo.
Em 1938, fez curso complementar em pré-Engenharia no Ginásio Paranaense, hoje Estadual do Paraná.
Em 1940, ingressou na Faculdade de Engenharia da Universidade do Paraná. Em 1945, Enedina Alves Marques se gradua em Engenharia Civil na mesma instituição, tornando-se a primeira mulher engenheira do Paraná e a primeira engenheira negra do Brasil. A formatura se deu no Palácio Avenida, tendo como paraninfo o professor João Moreira Garcez.
Antes dela, dois negros se formaram em Engenharia na instituição – Otávio Alencar (1918) e Nelson José da Rocha (1938).
Em 1981, Enedina é encontrada morta no Edifício Lido, no Centro de Curitiba, vítima de ataque cardíaco. Morreu sem família imediata e seu corpo demorou a ser encontrado.O Diário Popular, tabloide da época, a retratou de camisola levantada, como se fosse uma mera desconhecida, o que causou a indignação de membros do Instituto de Engenharia do Paraná. Após o caso, vários artigos ressaltando seus feitos pela engenharia foram publicados pela imprensa.
Em 2006, foi fundado o Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques, em Maringá.
Em 2014, o historiador baiano Jorge Luiz Santana defende, na Universidade Federal do Paraná, monografia sobre a vida e obra de Enedina Marques, sob orientação da pesquisadora Roseli Boschilia. No mesmo ano, uma campanha pela internet pedia que o Edifício Teixeira Soares, ex-RFFSA, adquirido pela UFPR, fosse renomeado em sua homenagem. Ao mesmo tempo, o historiador Sandro Luís Fernandes e o cineasta Paulo Munhoz iniciaram uma pesquisa para a confecção de um documentário sobre a vida de Enedina, projeto chamado A Engenheira, que, até 2015, estava estacionado por falta de investimento.

Aqualtune avó de Zumbi dos Palmares

Conheça Aqualtune avó de Zumbi dos Palmares

Princesa- guerreira, um dos maiores símbolos de resistência e luta pela liberdade negra, mãe de um dos maiores líderes pela luta da liberdade negra, e avó de talvez o maior dos líderes da luta contra a escravidão. Ou se você quiser resumir, simplesmente Aqualtune.
Não consegui saber de fatos sobre a infância da princesa. Seu rastro histórico começa no ano de 1665, quando, segundo a história, liderou cerca de 10mil guerreiros congoleses , no que ficou conhecido como “ a Batalha de Mbwila”, quando a sua tribo foi atacada por outra de nome “Wachagas”- há quem diga que o conflito foi provocado pelos portugueses, interessados em cativos para o comércio de escravos. O fato, é que a tribo de Aqualtune perdeu o combate, e a cabeça o pai dela, o rei de Mani-Kongo, foi cortada e exibida em uma igreja, enquanto a sua filha, foi presa com seus companheiros e vendida como escrava.
Forte de Elmina, em Gana (atualmente, forte de São Thiago)
Então, teria sido enviada em um navio negreiro para o forte de Elmina, em Gana, onde teria sido “batizada” por um bispo católico e, como prova de seu batismo, foi marcada uma flor com ferro quente em cima do seu seio esquerdo. Daí, completou a travessia no navio negreiro para o Brasil, onde desembarcou em Recife. Alguns dizem que ela já teria embarcado grávida , e teria sido estuprada diversas vezes por outro escravo, pois, forte e saudável, foi escolhida para ser vendida como escrava reprodutora. Conta que em desespero, ao embarcar em Recife, teria tentado correr para o mar- provavelmente uma tentativa desesperada de voltar para a sua terra natal.
Porém, nossa guerreira se encontrava em um estado de letargia profundo. Provavelmente, depressão- e quem não compreenderia? Já em Recife, foi vendida para uma fazenda especializada em gado e o dono da fazenda, ao saber da sua origem, e que Aqualtune ainda era venerada por alguns escravos devido a sua origem, a entregou para os seus piores homens em sua fazenda.
E a letargia em nossa heroína continuava. Até que, na altura do sexto mês de gravidez, ela sentiu seu bebê se mexer e “ seu sangue se mexeu junto”.
Então, ela ouviu falar em um chamado “ Reino dos Palmares”. Desde o primeiro momento da escravidão no Brasil, que vários negros criaram centros de resistência fugindo para o interior . Mais ou menos em 1606, um grupo de escravos conseguiu se estabelecer nas montanhas de Pernambuco, e ali conseguiram estabelecer um “mocambo” , na região conhecida como Palmares.
Então, surgiu em Aqualtune a vontade de fugir e se juntar ao povo de Palmares. Se juntou a um grupo de escravos para se insurgir e destruir a casa grande. Conseguiu e , no meio de sua fuga, mais escravos foram se somando ao grupo ao longo do caminho. Conta-se que chegaram com ela cerca de 200 escravos ao Reino de Palmares. Então, alguns contam que sua origem real teria sido reconhecida , mas o fato é que ela se tornou o líder do Reino dos Palmares. E dentro do chamado reino dos Palmares, ela teria fundado o chamado “ Quilombo dos Palmares”. Ali, Aqualtune deu a luz a dois filhos, ambos guerreiros que também entraram para a história: Ganga Zumba e Ganga Zona, conhecidos pela sua coragem e liderança. Também teve uma filha, de nome Sabina, que teve mais tarde, um menino chamado Zumbi, que mais tarde ficaria conhecido como “Zumbi dos Palmares”, e seria reconhecido como um dos maiores líderes negros da história.
O final da vida de Aqualtune é controverso. Alguns dizem que uma das várias expedições enviadas pelo governo português e donos de fazenda, teriam queimado a vila onde ela vivia junto com outros idosos da comunidade. Outros alegam que ela teria conseguido fugir . Outros ainda afirmam que ela simplesmente morreu de doenças da velhice. O fato, é que há uma lenda que os deuses da África teriam tornado nossa guerreira imortal, um espírito ancestral que conduziu seus guerreiros até a queda definitiva do quilombo dos palmares em 1694. Dizem que até hoje ela é lembrada em Pernambuco, e a princesa, cantada na música Zumbi, de Jorge Bem Jor, seria uma referência à Aqualtune.

Autora: Minnie Santos (Blogueiras Negras)

Primeira atriz negra a ganhar o Oscar!


Você conhece Hattie McDaniel? Ela é a primeira atriz negra a ganhar o Oscar, em 1940 como atriz coadjuvante por "E o Vento Levou…".
Na época, o cenário era ainda pior: McDaniel recebeu o Oscar em um hotel que sequer permitia a entrada de negros.
De acordo com relatos do produtor do filme, David O. Selznick, teve de pedir um favor para conseguir que McDaniel entrasse no Ambassador Hotel, em Los Angeles, onde a cerimônia foi realizada. Mas ela não pôde se sentar junto dele e do restante do elenco de E o Vento Levou…, como Vivien Leigh e Clark Gable. A atriz ficou em uma pequena mesa no fundo do salão, junto com seu acompanhante, F.P. Yober, e seu agente, William Meiklejohn.
De acordo com o relato:
“Uma lista de vencedores vazou antes da cerimônia, então a vitória de McDaniel não surpreendeu. Ainda assim, quando ela recebeu a placa que era dada aos coadjuvantes, o salão ficou repleto de emoção, escreveu a colunista Louella Parsons: ‘Você teria ficado com a voz embargada, como todos ficamos.’
Filha de dois ex-escravos, [McDaniel] fez um discurso gracioso: ‘Devo sempre manter [o prêmio] como um farol para qualquer coisa que eu possa fazer no futuro. Espero sinceramente que eu possa sempre ser um ganho para a minha raça e para a indústria do cinema.'”
McDaniel nasceu em 1895, no Estado americano do Kansas. Com irmãos atores, começou a se apresentar em clubes e estreou no cinema em 1932. O primeiro papel creditado foi em Judge Priest, de 1934. A fama veio cinco anos depois, com E o Vento Levou…, no qual interpretou Mammy, a escrava que cuida de Scarlett O’Hara.
O Oscar não foi capaz de diversificar os papéis de McDaniel. De acordo com o Hollywood Reporter, a atriz interpretou domésticas em 74 de 94 trabalhos listados no Imdb. Por isso, foi criticada por muitos negros, que a acusavam de reforçar estereótipos. “Ela teve de aguentar perguntas da comunidade branca e da comunidade negra”, disse Mo’Nique, que homenageou McDaniel quando ganhou seu Oscar, em 2010, por Preciosa.
No fim dos anos 1940 McDaniel fez sucesso em um programa de rádio, Beulah – o primeiro dos EUA a ser protagonizado por uma mulher negra. Morreu em 1952, aos 57 anos, de câncer de mama.
Seu último desejo foi ser enterrada no Hollywood Forever Cemetery, como várias estrelas de Hollywood, mas o pedido foi negado por ela ser negra. Em 1999, a família conseguiu que um memorial em sua homenagem fosse colocado no local.

fonte: site Mulher no Cinema

Virginia Bicudo foi a primeira mulher negra a estudar Psicanalise do Brasil.


Virgínia Leone Bicudo (1910-2003), paulistana, filha de uma imigrante italiana branca e de um brasileiro negro, neta de uma escrava alforriada, foi a primeira mulher a fazer análise na América Latina.
Foi a primeira pessoa a escrever uma tese sobre relações raciais no Brasil, inaugurando, na academia, o debate sobre racismo. Foi também a primeira psicanalista não-médica no País. Tantas credenciais desta psicanalista e socióloga e, no entanto, seu nome, seu protagonismo e sua história se tornaram invisíveis a muitos brasileiros.
"Àqueles que não sabiam desse fato e o acham estarrecedor, comungamos do mesmo sentimento de estranhamento: como nunca soubemos disso? Como não nos falaram antes?", questiona a psicanalista Ana Paula Musatti Braga, doutora em psicologia clínica pela USP (Universidade de São Paulo), em seu artigo Pelas trilhas de Virgínia Bicudo: psicanálise e relações raciais em São Paulo, publicado na revista Lacuna.
"No meu modo de ver, nunca houve interesse na divulgação do trabalho dela. Eu diria que poucos negros conhecem o que a Virgínia fez", afirma ao HuffPost Brasil a psicanalista Isildinha Baptista Nogueira, doutora em Psicologia pela USP e pesquisadora, desde a década de 1990, dos efeitos do racismo no psiquismo dos negros.

Discutindo o conceito raça e as teorias raciais no Brasil em fins do século XIX




As transformações do conceito raça no decorrer da história


  Neste ensaio pretendo tratar das transformações do conceito de raça em as suas diferentes abordagens. A palavra raça originariamente vem do italiano razza, que tem sua origem do latim ratio, significando assim sortido, espécie, categoria. O termo raça em época medieval foi usado para designar linhagem, descendência (MUNANGA, 2004)
  Durante os séculos XV e XVI, os contatos com povos ameríndios, africanos e melanésios trouxeram a necessidade de explicá-los e classificá-los, essa explicação vai ser dada principalmente pela teologia a partir de referências de textos bíblicos, que justificou uma classificação inferiorizante.
  Já no século XVII o francês Françoes Bernier em 1684 utiliza o termo raça para classificar os diferentes grupos humanos de acordo com as suas diferenças físicas. Em meados do século XVIII o naturalista sueco Carl Von Liné, mais conhecido no Brasil como Lineu, vai se utilizar do conceito de raça para classificar algumas espécies de plantas.
  Ainda no século XVIII conhecido também como século das luzes, os iluministas vão se afastar de explicações teológicas, trazendo o conceito de raça das ciências naturais para classificar esses recém descobertos. Carl Von Liné vai classificar a raça humana hierarquicamente:
Americano: que o próprio classificador descreve como moreno, colérico, cabeçudo, amante da liberdade, governado pelo hábito, tem corpo pintado.
Asiático amarelo: melancólico, governado pela opinião e pelos preconceitos, usa roupas largas.
Africano: negro, flegmático, astucioso, preguiçoso, negligente, governado pela vontade de seus chefes (despotismo), unta o corpo com óleo ou gordura, sua mulher tem a vulva pendente e quando amamenta seus seios de tornam moles e alongados.
Europeu: branco, sanguineo, musculoso, engenhoso, inventivo, governado pelas leis, usa roupas apertadas. (MUNAGA, 2004)


  Tratados como primitivos, selvagens, os povos das Américas escandalizavam o colonizador com suas organizações sociais, políticas e culturais completamente diferentes da “civilização européia”. Assim estudiosos como Montaigne em seu texto “Os canibais” (1578) elogiava o modo como os Tupinambás faziam a guerra, mas ainda assim não apagava a escandalização causada ao autor: “Tudo isso é verdadeiramente interessante mas que diabos essa gente não usa calças!” (SCHWARCZ, 2001)
  No século XIX os avanços tecnológicos reforçam a idéia de que a única “civilização” existente era a européia. Idéias baseadas no racismo, para afirmar que entre os seres humanos haveria várias raças e que nem todas elas haviam progredido diante do modelo europeu.
  Em 1859, com Charles Darwin acontece a publicação do livro A origem das espécies, que traz consigo a idéia de evolução. Apoiados nesta noção surgem teóricos como Morgan, Frazer e Tylor lançando escola evolucionista social. Com o conceito de evolução como complexificação das sociedades e ajuste social (NEVES, 2008).
  Entramos no século XX com a predominação de idéias pseudocientíficas e deterministas como as evolucionistas, categorizações hierarquizantes, tomadas de racismo e de uma completa visão etnocêntrica.
  Fica claro que a noção de raça vai se modificar ao decorrer da história, se readequando e levando a criação dessas teorias raciais que servem como principal instrumento de dominação, legitimando o racismo e a superioridade do colonizador sobre os povos colonizados e escravizados.
  Teorias essas que influenciam pessoas e comportamentos racistas até os dias de hoje. Um exemplo disso é encontrarmos em 2011 o termo raça semelhante como o que foi estabelecido por Carl Von Liné no século XVIII, no dicionário Michaelis em sua página de consulta on line na Internet:


[...] Greta no casco das bestas. R. amarela: a que se caracteriza pela pele amarela, rosto largo, maxilares salientes, olhos amendoados, cabelos pretos, ásperos e luzidios, nariz largo e achatado, pescoço curto, pouca barba e ângulo facial menos aberto que o da raça branca. R. azeitonada: a que se caracteriza pela pele cor de azeitona, olhos negros, nariz curto, boca grande, cabelos pretos e brilhantes, maxilares salientes e estatura média. R. branca: a que se caracteriza pela pele branca, olhos azuis, castanhos ou pretos, rosto oval, ângulo facial muito aberto, nariz saliente, lábios delgados e róseos, maxilas sem saliência, barba espessa, cabelos finos, lisos ou ondeados, ordinariamente louros ou negros. R. caucásica: V raça branca. R. de víbora: gente de muito má índole. R. etiópica: V raça preta. R. humana: os homens. R. indígena: V raça vermelha. R. malaia: V raça azeitonada. R. mongólica: V raça amarela. R. negra: V raça preta. R. preta: a que se caracteriza pela pele mais ou menos escura, cabelos curtos e muito crespos, nariz achatado e maxilas proeminentes. R. vermelha: raça humana que abrange todos os povos indígenas da América e se caracteriza pela pele avermelhada ou cor de cobre, testa inclinada para trás, cabelos pretos, grossos e lisos, pouca barba, nariz saliente e estatura alta. R. futuras: gerações porvindouras. R. latinas: povos que provêm dos romanos. Ser de má raça: ser de má índole, ter maus instintos, ser de má qualidade. Ter raça: a) provir de ascendência africana; b) ter linhagem, brasão; c) ter fibra. (dicionário Michaelis)


  Fica nítido que raça em sentido biológico não deve ser utilizada para classificar seres humanos. No século XX temos uma contribuição importante da Genética Humana para invalidar a utilização de raças para explicar a diversidade humana. O problema não está em categorizar as diferenças morfológicas, imunológicas ou fisiológicas e sim estabelecer que umas são melhores e outras piores (MUNANGA, 2004).
  A partir de 1978 com Movimento Negro Unificado (MNU) que tem como marca a afirmação e valorização das diferenças destacando a aspectos culturais e políticos. Raça ressurge com conotação política, para lutar contra a discriminação e marginalização racial, social, política, econômica, e cultural do povo negro. (Livro Histórias do Movimento Negro no Brasil, 2007).



A construção histórica do racismo no Brasil a partir do século XIX


O que surpreende o leitor, ao se retomar as teorias explicativas do Brasil, elaboradas em fins do século XIX e início do século XX, é a sua implausibilidade. Como foi possível a existência de tais interpretações, e, mais ainda, que elas tenham se alcançado o status de Ciências. (ORTIZ, 2003)


  Esta trecho da obra de Renato Ortiz traduz o que pretendo tratar nesta parte do texto. As teorias explicativas sobre o Brasil iram recair sobre teóricos, precursores das Ciências Sociais e as suas tentativas de resolver um problema que se apresenta nessa época, a questão da identidade nacional.
 Desde a abolição em 1888 e a Proclamação da República em 1889, tenta-se encontrar uma “cara” para o Brasil. Se faz necessário se consolidar como nação, e qual seria o rosto dessa nação?  
 Teóricos como Silvio Romero, Nina Rodrigues, Euclides da Cunha trataram em suas obras de estudar a sociedade brasileira em finais de século XIX. Eles foram de grande importância para consolidação das Ciências Sociais no Brasil, mas não posso deixar de ressaltar as abordagens racistas que criaram em suas “produções científicas”.
 A importação de teorias evolucionistas, que tinham como modelo a civilização européia resultou no antagonismo entre teoria e realidade no Brasil. Como explicar que o Brasil não se encaixava no modelo europeu? Assim vários argumentos foram criados, como fatores climáticos, de meio ambiente e raça que determinavam o atraso brasileiro.
Mas volto a concordar com Renato Ortiz (2003) que argumenta como sendo a problemática racial, a mais abrangente, vários autores viriam discuti-la.
  Silvio Romero em introdução para o livro Africanos no Brasil (1888) de Nina Rodrigues diz: “nós que temos o material em casa, que temos a África em nossas cozinhas, como a América em nossas selvas, e a Europa em nossos salões , nada havemos de produzir neste sentido! É uma desgraça” (SCHWARCZ, 1999). Um chamado para estudar a diversidade racial que se estabeleceu no país, coisa que vários estrangeiros já haviam descoberto.
Surge ai uma outra questão: a mestiçagem. Por Nina Rodrigues o mestiço era entendido como degenerado, inferiorizado. O autor critica duramente a mestiçagem.Vários autores da época vão colocar sobre o mestiço as características inferiorizantes elencadas por Nina Rodrigues.
  Com a influência de Franz Boas e sua Antropologia Culturalista surge com Gilberto Freyre em 1933 a obra Casa Grande e Senzala. Gilberto Freyre vai trazer juntamente com a sua obra o mito das três raças formadoras da nação, o mito da democracia racial, que perdura até hoje. A obra traz a visão positiva do mestiço.
Casa Grande e Senzala vai abordar uma visão positiva do mestiço que passa a partir daí a representar a nação. Logicamente que não se desconstrói tão rapidamente o racismo e superioridade do branco.
  Mas ainda assim o mito da democracia racial se consolida no Brasil, tornando o país um exemplo de “convivência pacífica” entre brancos, negros e indígenas. A segunda Guerra Mundial vai trazer utilizações inesperadas do termo raça. O nazismo vai levar ao Holocausto e a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em 1949 a elaborar junto com teórico Artur Ramos um plano de trabalho junto a antropólogos e outros cientistas sociais brasileiros para resolver problema de misturas de raças. O documento além de ter outras abordagens, tratava dos estudos das relações raciais instituídas no Brasil.
  Neste documento, Florestan Fernandes vai revelar a inexistência de uma democracia racial com a citação: “No Brasil tem preconceito de se ter preconceito racial” (MUNAGA, 1996).  O sociólogo encontrou em suas pesquisas concentrações de privilégios econômicos, sociais e culturais relacionados a raça. Esse “racismo silenciado” como trata Munanga (1996) torna mais difícil no Brasil identificar e compreender a discriminação.O mito das três raças é neste sentido exemplar, ele não somente encobre os conflitos raciais como possibilita a todos de se reconhecerem como brasileiros, o que invisibiliza as manifestações de valorização e reconhecimento da negritude.
  Em 1978, como já foi escrito anteriormente, através de ações dos movimentos sociais de luta antirracismo, como o Movimento Negro Unificado (MNU), acontece ressignificação dos termos raça e negro com conotação política e cultural. Raça e Negro se tornam termos de afirmação cultural e política no combate a discriminação racial e na luta para que vários direitos negados e silenciados pela administração pública sejam garantidos na constituinte de 1988.
  É possivel concluir assim que o racismo e a discriminação sempre existiram, e fazem parte da construção do pensamento social brasileiro. Criou-se no Brasil quadro singular de racismo que marca, exclui e rebaixa quem o sofre, mas não conseguimos apontar aquele que o pratica. Finalizo com uma citação: “Elie Wiesel, Prêmio Nobel da Paz, disse uma frase muito interessante:” O matador mata sempre duas vezes – a segunda pelo silêncio” (MUNAGA, 1996, p. 213).

Por Nayhara Almeida de Sousa


Referências Bibliográficas


ALBERTI, Verena & PEREIRA, Amilcar (Orgs.). Histórias do Movimento
Negro: depoimentos ao CPDOC. Rio de Janeiro: Pallas;
CPDOC-FGV, 2007.


Dicionário Michaelis:
http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=ra%E7a


MUNANGA, Kabengele. As facetas de um racismo silenciado. In.; SCHWARCZ, Lilia. QUEIROZ, Renato da Silva. (Org.). Raça e Diversidade. São Paulo: Edusp. 1996. P. 218 - 219.


MUNANGA, Kabengele. Uma aborgdagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. In.BRANDÃO, André Augusto P. (Org.). Cardernos PENESB, N. 05, Niterói, RJ: EDUFF, 2004.


NEVES, W. Evolução darwiniana e ciências sociais. Disponível em: <http://www.iea.
usp.br/iea/artigos/nevesevolucaodarwiniana.pdf>. Acessado em: 11.2.2008.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 2003.


SCHWARCZ, Lilia K. Moritz. “Questão racial e etnicidade”. In: O que ler na ciência social brasileira (1970-1995) (org) MICELI, S. São Paulo: Editora Sumaré: ANPOCS; Brasília, DF: CAPES, 1999

SCHWARCZ, L. K. M. Raça como negociação: sobre teorias raciais em finais dos século XIX no Brasil. In: FONSECA, M. N. S. (Org.). Brasil afro-brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. P. 11-40.

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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Você conhece Harriet Tubman?


                     Ela foi a primeira mulher dos Estados Unidos a liderar tropas em batalha.

Harriet nasceu em 1822, sob a condição de escravizada em Maryland. Cresceu trabalhando pesado na lavoura o que a fez perceber que seu potencial como mulher era o mesmo de qualquer homem. Foi ensinada pelo pai, desde muito cedo, a conhecer plantas e ervas na mata para alimentação e cura de enfermidades.

Cortava árvores, abria trilhas e consegui caminhar silenciosamente pela mata. Por suas excelentes habilidades, Harriet conseguiu conduzir mais de 300 pessoas pelas rotas de Underground Railroad, durante a guerra civil. Harriet faleceu no dia 10 de março de 1913, em New York.

Nas palavras de Ângela Davis: "Harriet Tubman foi uma pessoa extraordinária. No entanto olhando-a de um outro ponto de vista, o que ela fez foi simplesmente expressar da própria maneira o espírito de força e perseverança conquistada por tantas mulheres de seu povo."

Fonte: livro Mulheres, Raça e Classe. Ângela Davis.