segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Enegrecer o femenismo!


É necessário discutir as limitações das perspectivas feministas eurocêntricas e universalistas que se demostraram incapazes de reconhecer a relevância da questão racial no combate das desigualdades econômicas e hierarquias de gênero. Ao negar a existência do racismo, diversos setores da sociedade acabam por reproduzir o mito da democracia racial. Com isso, silenciam as vozes de mulheres negras E contribuem com a perpetuação da situação de invisibilidade social.
     Há tempos, nós mulheres negras, percebemos que dentro dos diversos movimentos e coletivos feministas a chamada “sororidade” quase nunca se desdobra em solidariedade racial. Nem mesmo a "questão de classe", quando abordada isoladamente, é suficiente para explicar a situação da população negra. É importante perceber que as questões de gênero, raça e classe são estruturais e se intercruzam, deixando a mulher negra em situação de extrema vulnerabilidade. Já não é mais possível hierarquizar opressões.
       Ainda há muita resistência em perceber que a opressão de gênero e classe une mulheres brancas e negras, mas o racismo nos separa. É urgente que feministas brancas reconheçam seus privilégios para o feminismo realmente avançar. Lélia Gonzalez, resume muito bem nossas dificuldades: 

         “padeciam de duas dificuldades para as mulheres negras: de um lado, o viés eurocentrista do feminismo brasileiro, ao omitir a centralidade da questão de raça nas hierarquias de gênero presentes na sociedade, e ao universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental) para o conjunto das mulheres, sem as mediações que os processos de dominação, violência e exploração que estão na base da interação entre brancos e não-brancos, constitui-se em mais um eixo articulador do mito da democracia racial e do ideal de branqueamento. Por outro lado, também revela um distanciamento da realidade vivida pela mulher negra ao negar toda uma história feita de resistências e de lutas, em que essa mulher tem sido protagonista graças à dinâmica de uma memória cultural ancestral – que nada tem a ver com o eurocentrismo desse tipo de feminismo” 


Lélia acerta ao afirmar que para a mulher negra "a tomada de consciência da opressão ocorre, antes de tudo, pelo racial". Por isso torna-se fundamental Enegrecer o feminismo, dar voz ao feminismo negro.

*As citações da Lélia Gonzales e a inspiração para criar o blog foram retirados do artigo Mulheres em Movimento, escrito por Sueli Carneiro. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

Prefácio de Assata: Uma Autobiografia por Angela Davis

Préfacio escrito por Angela Davis pro livro Assata: Uma Autobiografia de Assata Shakur
Na década de 70, enquanto Assata Shakur esperava julgamento por ser cúmplice em um assassinato, eu participei de um evento beneficente na Universidade Rutgers1 em New Brunswick, Nova Jérsei, para levantar fundos para sua defesa. Na época, Assata estava presa na Unidade Correcional para Homens de Middlesex2 . Lennox Hinds, professor da universidade, havia me convidado para ser uma das palestrantes no evento. Lennox era um líder da Conferência Nacional de Advogados Negros3 e representava Assata em um processo federal contestando as condições aterrorizantes do seu confinamento na prisão de Nova Jérsei. Ele havia trabalhado anteriormente no meu caso e nós dois havíamos sido líderes da Aliança Nacional contra a Repressão Racista e Política4 desde sua fundação em 1973. No evento beneficente havia funcionários da faculdade, um considerável número de profissionais negros e ativistas locais que eram o suporte principal de diversas campanhas para libertação de presos políticos da época.
Foi um evento alegre, cheio do otimismo típico da época. Minha própria recente absolvição das acusações de assassinato, sequestro e conspiração serviram como exemplos dramáticos de como nós podíamos desafiar as ofensivas do governo contra movimentos antirracistas radicais com sucesso. Não importa quão poderosas as forças estavam contra Assata – o programa de contrainteligência do FBI5 e as instituições policiais de Nova Jérsei e Nova Iorque – ninguém conseguia nos convencer na época que não éramos capazes de construir um movimento bem sucedido pela liberdade de Assata. Esse evento foi um passo pequeno nessa direção e, enquanto saíamos de lá, estávamos bastante satisfeitos com os três mil dólares que levantamos naquela tarde.
Àquela altura, todo ativista político havia aprendido a presumir que nossas reuniões públicas estavam sob vigilância da polícia e/ou do FBI. Apesar disso, nós estávamos totalmente despreparados para o que pareceu uma recriação dos eventos que ocorreram em 1973 e levaram à acusação de assassinato contra Assata. Assata, Zayd Shakur e Sundiata Acoli foram parados na Rodovia de Nova Jérsei6 por policiais estaduais que alegaram que estavam com uma lanterna traseira quebrada. O episódio deixou Assata gravemente ferida e outros dois – o policial estadual Werner Foerster e o amigo de Assata, Zayd Shakur – mortos. Enquanto alguns de nós deixamos o evento e dirigíamos por uma rodovia municipal em direção à casa de Lennox Hind, onde acontecia uma pequena festa, nós ficamos bastante surpresos quando policiais locais sinalizaram para que parássemos o carro. Pediram para a minha amiga Charlene Mitchell, na época diretora executiva da Aliança, sair do carro juntamente com a pessoa que estava dirigindo e a outra que estava conosco. Enquanto os policiais nos provocavam pondo claramente as mãos em suas armas, fui orientada a ficar no carro vazio. Lennox, que estava no carro da frente, imediatamente deu a volta e abordou os policiais com sua identificação de advogado, dizendo que era meu advogado. Isso fez com que os policiais ficassem visivelmente mais nervosos, incluindo um que puxou uma arma de bala de borracha da sua viatura e se encaminhou para mirar contra Lennox bem de perto. Todos nós ficamos paralisados. Nós sabíamos muito bem que qualquer gesto inocente poderia levá-los a sacar suas armas e esse confronto poderia levar facilmente a uma recapitulação dos eventos que deixaram Assata com a acusação de assassinato.
A falsa explicação dada pelo policial para a emboscada foi um pedido de prisão em meu nome (mais tarde provado ser falso). Apesar de terem deixado a gente partir, logo depois que chegamos na casa do Lennox, descobrimos que eles já haviam pedido reforço e literalmente cercado a casa. Com uma das primeiras mulheres a serem juíza em Nova Jérsei e diversas outras figuras importantes da comunidade na casa, nós fomos obrigados a chamar forças maiores na forma do deputado John Conyers em Washington. Nós pensamos que um pedido de escolta federal até estarmos fora do estado de Nova Jérsei talvez pusesse alguma pressão na polícia local. Essa era o tipo de medida – e amigos – necessária naquela época.
Eu relatei esse incidente em específico porque talvez ajude os leitores da autobiografia da Assata não apenas a focar no papel da polícia durante a década de 70, mas também a melhor entender aspectos históricos importantes da estereotipização rotineira associada às práticas policiais atuais. Tal perspectiva histórica é importante hoje quando expressões descaradas de racismo estrutural – como o perfil de encarceramento em massa a qual comunidades de pessoas de cor7são submetidas – são invisibilisadas pelo medo predominante de crimes. E se isso não bastasse, nós vemos que ao mesmo tempo, soluções como programas de ações afirmativas e auxílios do governo são constantemente suspensos.
Quando Richard Nixon8 levantou a bandeira de “lei e ordem” nos anos 70, isso foi usado em parte para desacreditar o movimento de libertação negra e para justificar a utilização da polícia, tribunal e prisões contra figuras chaves nesse e outros movimentos radicais da época. Atualmente, a irônica associação da diminuição da taxa de crimes e a consolidação de complexos industriais de prisão que faz altas taxas de encarceramento virarem sua necessidade econômica facilitou o aprisionamento de duas milhões de pessoas nos Estados Unidos. Nesse contexto ideológico, presos políticos como Assata Shakur, Mumia Abu-Jamal e Leonard Peltier são representados no discurso político popular como criminosos que merecem ou ser executados ou passar o resto de suas vidas atrás das grades.
Durante o fim dos anos 90, a histeria racista direcionada contra Assata foi ressuscitada quando a Polícia Estadual de Nova Jérsei utilizou a primeira vista do papa João Paulo II a Cuba para pressionar Fidel Castro a extraditar Assata. Como se não fosse bastante, a governadora de Nova Jérsei Christine Todd Whitman ofereceu $50.000 de recompensa – depois dobrada – pela extradição de Assata e o Congresso passou uma pauta pedindo ao governo de Cuba que iniciasse o procedimento de extradição.
Em um carta aberta ao Papa, Assata faz uma pergunta que diz respeito a todos nós: “Por que, eu me pergunto, eu chamo tanta atenção? O que eu represento que é tamanha ameaça?” Nós todos deveríamos nos esforçar para responder à questão dela. Por que, de fato, ela foi construída pelo governo e pela imprensa de massa como uma perfeita inimiga nos anos 70 para ressurgir na virada do século como único alvo dos governantes, Congresso e da Ordem Fraternal de Polícia9 ? O que fizeram ela representar? Que trabalho ideológico essa representação fez?
Nos anos 70, a imagem de Assata Shakur foi escancarada em cartazes oficiais de procurada do FBI e na imprensa como evidência visual das motivações terroristas do movimento pela libertação negra. Militantes negros eram considerados inimigos do estado e eram associados aos desafios comunistas à democracia capitalista. A longa busca por Assata, durante a qual ela foi demonizada de maneiras que hoje são inimagináveis, serviu depois para justificar o aprisionamento de um grande número de ativistas políticos, muito dos quais continuam presos até hoje.
Vinte e cinco anos depois, a distribuição da imagem de Assata como inimiga é ainda mais prejudicial, omitindo o contexto político e representando-a como uma criminosa normal – uma assaltante de bancos ou assassina. Essa recuperação da imagem dela do passado por motivos bastante atuais serve para justificar a consolidação de um grande complexo prisional industrial, que Assata descreveu como “…não apenas um mecanismo para converter dinheiro público de impostos em lucro para corporações privadas, mas também um elemento essencial do capitalismo neoliberal moderno.” No seu ponto de vista, essa nova formação tem dois motivos: “um, neutralizar e conter um grande segmento de potenciais setores rebeldes da população e, dois, manter um sistema de superexploração, onde principalmente presos negros e latinos são emprisionados em comunidades rurais brancas e supervisionadas.”
Como a citação acima revela, Assata continua bastante engajada na política radical atual dos Estados Unidos, apesar dela não poder visitar esse país desde sua fuga da prisão e sua decisão de ficar em Cuba muitos anos atrás. Enquanto você lê sua extraordinária autobiografia, você irá descobrir uma mulher que não possui nada em comum com a representação hostil que se nega a sumir. Eu peço que reflita o que deve ter significado para ela não ter podido ir ao funeral de sua mãe ou visitar seu novo neto. Enquanto você acompanha a história da sua vida, você irá descobrir um ser-humano compassivo com um compromisso imutável por justiça que vai facilmente da questão racial à étnica, dentro e fora da prisão e oceano e tempo afora. Ela atinge a todos nós e, especialmente, aqueles de nós isolados em uma rede global de prisões e cadeias que está em crescimento. Em um tempo em que otimismo saiu do nosso vocabulário político, ela oferece valores sem preço – inspiração e esperança. Suas palavras nos lembram, como Walter Benjamin uma vez observou, que é apenas pelo amor daqueles sem esperança que a esperança é dada a nós.
Angela Y. Davis
Universidade da California, Santa Cruz
Março de 2000
1 Universidade Estadual de Nova Jérsei.
2Do original Middlesex County Correctional Facility for Men.
3Do original National Conference of Black Lawyers.
4Do original National Alliance Against Racial and Political Repression.
5Programa COINTELPRO (Counter Intelligence Program) do FBI (Federal Bureau of Investigation) criado para perseguir e destruir especificamente movimentos Negros considerados radicais.
6Do original New Jersey Turnpike.
7Do original people of color. Na língua inglesa, essa expressão não possui o caráter pejorativo que possui na língu portuguesa e é utilizada para se referir à pessoas que não são brancas, como Negros, Latinos, Indígenas etc.
8Presidente dos Estados Unidos entre 1969 a 1974.
9Do original Fraternal Order of Police.
Tradução: foc
Fonte: https://assatashakurpor.wordpress.com

terça-feira, 6 de março de 2018

Strong Island: Documentário indicado ao Oscar 2018


“Strong Island”, concorreu ao Oscar 2018 na categoria Melhor Documentário.



O documentário fala sobre o assassinato do irmão do diretor Yance Ford, William Ford Júnior. Júnior foi morto por um jovem mecânico branco em 1992, enquanto buscava o carro que deixou para consertar. Ao abordar o crime, que destruiu a sua família, o cineasta discute o racismo e o genocídio da população negra nos Estados Unidos. Ford trabalhou mais de uma década na produção.


Strong Island está disponível na Netflix

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O verdadeiro Pantera Negra: A história de HUEY P. NEWTON


Huey P. Newton foi co-fundador e líder do Black Panther Party for Self-Defense (conhecido no Brasil como Panteras Negras). Huey, foi o mais novo de sete filhos, nasceu em Monroe, Louisiana, mas passou a maior parte de seus anos formativos em Oakland. Foi em Oakland que conheceu Bobby Seale enquanto frequentava o Merritt College.




Seale e Huey compartilhavam uma paixão por proteger e unir a comunidade negra e fundaram o Partido das Panteras Negras para a Autodefesa em 1966. Juntos, eles criaram uma Plataforma de 10 pontos para que o partido descreva suas crenças e ideais.

Tradução:
1- Queremos liberdade. Queremos o poder para determinar o destino de nossa Comunidade Negra; 2- Queremos emprego para nosso povo; 3-  Precisamos acabar com a exploração do homem branco na Comunidade Negra; 4- Nós queremos moradia, queremos um teto que seja adequado para abrigar seres humanos; 5- Nós queremos uma educação para nosso povo que exponha a verdadeira natureza da decadente sociedade Americana. Queremos uma educação que nos mostre a verdadeira história e a nossa importância e papel na atual sociedade americana; 6- Nós queremos que todos os homens negros sejam isentos do serviço militar; 7- Nós queremos o fim imediato da brutalidade policial e assassinato do povo preto; 8- Nós queremos a liberdade para todos os homens pretos mantidos em prisões e cadeias federais, estaduais e municipais; 9- Nós queremos que todas as pessoas pretas quando trazidos a julgamento sejam julgadas na corte por um júri de pares do seu grupo ou por pessoas de suas comunidades pretas, como definido pela Constituição dos Estados Unidos; 10- Nós queremos terra, pão, moradia, educação, roupas, justiça e paz. E como nosso objetivo político principal, um plebiscito supervisionado pelas Nações-Unidas a ser realizado em toda a colônia preta no qual só serão permitidos aos pretos, vítimas do projeto colonial, participar, com a finalidade de determinar a vontade do povo preto a respeito de seu destino nacional.

Huey obteve um Ph.D. em filosofia social, e seu conhecimento da legislação estadunidense ajudou muito o Black Panters Party (Partido Panteras Negras) em sua abordagem de mudanças sociais e políticas. As mobilizações organizadas pelo movimento passaram a criar inúmeras iniciativas da comunidade para progredir a comunidade negra, incluindo o programa de Café da manhã livre para crianças, programas de saúde gratuita e programas de ajuda e educação judiciária.



Essas atividades colocaram o partido no centro de preocupação do governo estadunidese e rotulado como "a maior ameaça à segurança interna do país" por J. Edgar Hoover, diretor do FBI na época. Em 1967, Newton foi preso por supostamente matar um policial de Oakland e mais tarde foi condenado a 15 anos de prisão. A comunidade lutou contra sua prisão e "Free Huey" tornou-se um slogan extremamente popular. Huey finalmente foi libertado após dois retriais.


Em 22 de agosto de 1989, Huey P. Newton foi baleado em Oakland por Tyrone Robinson, membro da família Black Guerrilla. Suas últimas palavras foram: "Você pode matar meu corpo, e você pode tirar minha vida, mas você nunca pode matar minha alma. Minha alma viverá para sempre! "

Fonte: http://www.vashtie.com/blog/culture-memory-huey-p-newton/

Viola Davis escancara a desigualdade salarial entre atrizes brancas e negras

Uma das atrizes americanas mais queridas no Brasil, por causa do protagonismo na série How to Get Away With Murder, Viola Davis falou abertamente sobre as desigualdades entre atrizes brancas e negras. 




A atriz Viola Davis atraiu suspiros e aplausos da platéia durante uma entrevista eletrizante em Los Angeles na noite de terça-feira 13/02/2018. Em uma poderosa conversa com a diretora executiva da Women in the World, Tina Brown, Davis falou desde sua infância difícil, até de suas experiências em Hollywood como mulher negra. A atriz não poupou palavras para denunciar a situação de vulnerabilidade de sua carreira de sucesso. Mesmo agora, com uma carreira de 30 anos e muitos trabalhos reconhecidos, incluindo os prêmios Emmy, Tony e Academy Awards, ela compartilhou que ainda se encontra "empolgada" pela discussão sobre igualdade de salários e de distribuição de papéis importantes no cinema.

Viola tocou em assuntos desconfortáveis para todas em Hollywood:

"Tenho uma carreira que é provavelmente comparável às de Meryl Streep, Julianne Moore e Sigourney Weaver. Elas vieram de Yale, vieram da Julliard, vieram da NYU. Elas trilharam o mesmo caminho que eu e, ainda assim, não estou nem perto delas. Nem em relação ao dinheiro e nem em relação às oportunidades de trabalho, nada perto." Observou a atriz de 52 anos, em uma vigorosa análise das desigualdades experimentadas por mulheres negras em Hollywood.

"As pessoas dizem, 'Você é a Meryl Streep negra. Nós te amamos. Não há ninguém como você'.  Ok, então se não há ninguém como eu, que me paguem o que eu mereço receber", disse ela, provocando um suspiro audível dos mais de 200 participantes do salão no Neuehouse Hollywood.



                                     
Davis argumentou:

"E isso precisa se estender a ofertas de papéis substanciais, também. Como artista, eu quero construir o ser humano mais complexo, mas o que eu recebo é a terceira garota da esquerda". Quando Tina Brown perguntou sobre sua participação limitada no filme Doubt (em português "A Dúvida"), de 2008, para o qual ela ganhou uma melhor indicação de atriz coadjuvante, Davis disse que seus dias de entusiasmo para provar o melhor de si mesma acabaram.

Davis citou Shonda Rhimes, famosa roteirista, cineasta e produtora de séries norte-americanas, entre elas:  Grey's Anatomy, Scandal, How to Get Away With Murder. 

"Eu sempre menciono o que Shonda Rhimes disse quando obteve o Prêmio Norman Lear nos Prêmios de Guildas dos Produtores há cerca de dois ou três anos". "Ela levantou e ela disse: 'Aceito este prêmio porque acredito que eu mereço isso. Porque quando eu ando pela sala e me pergunto o que eu quero, eu espero obtê-lo. E é por isso que eu acredito que mereço este prêmio. Porque Norman Lear foi um pioneiro, e eu também. "E isso é revolucionário como uma mulher, mas é duplamente revolucionário como uma mulher negra. Porque temos andado no vagão do trem - nós realmente temos. E é tempo de isso. "

Davis também lembrou de sua infância, disse que foi criada em situação de extrema pobreza em Rhode Island, por um pai alcoólatra que ela testemunhava abusar de sua mãe.

"Eu era um degrau a menos do que pobre", ela disse, descrevendo sua casa, na infância: "infestada de ratos, indo à escola com fome, fedendo e coberta de vergonha. "As pessoas vêem a pobreza como apenas um estado financeiro", disse ela. "A pobreza se infiltra em sua mente, ela se infiltra no seu espírito, porque tem efeitos colaterais".


"Essa experiência de sentir-se "invisível" e traumatizada é o cerne do seu compromisso de falar para aqueles que não conseguem falar por si mesmos", disse ela, incluindo um discurso emocionante realizado na Marcha das Mulheres de 20 de janeiro de 2018, em LA, sobre mulheres negras: "as mulheres que não têm dinheiro e não têm a Constituição, não têm a confiança e nem as imagens em nossa mídia que lhes inspirem uma sensação de auto-estima o suficiente para quebrar seu silêncio que está enraizado."

Viola encerrou dizendo que:

"Me custou muito estar nesse palco e compartilhar minha história pessoal", "O modo como a vida funciona é que você precisa custar-lhe algo. É quando você sabe que você realmente fez os sacrifícios."Se você está dedicado a mudar, deixe-o custar-lhe algo".

Não é de hoje que as mulheres negras denunciam as desigualdades entre brancas e negras. A disparidade salarial é só a ponta do Iceberg. Ainda há muita resistência em perceber que a opressão de gênero  une mulheres brancas e negras, mas o racismo nos separa. AS palavras de Viola nos inspiram a prosseguir resistindo.


Negras na História: Você conhece Tia Eva?


Eva Maria de Jesus, Tia Eva.
Grande referência negra do Estado de Mato Grosso do Sul, foi fundadora da Comunidade Quilombola Eva Maria de Jesus, também conhecida como Comunidade Negra Tia Eva ou Comunidade da Igrejinha de São Benedito.
Eva nasceu em 1848 na fazenda Ariranha, em Jataí, Goiás. Escravizada, desde cedo, para os afazeres domésticos, Tia Eva desempenhou várias funções na casa grande da fazenda. Ainda jovem assumiu os serviços na cozinha onde sua função principal era fazer doces.
Eva cresceu em meio aos maus tratos e abusos sexuais recorrentes no período escravista. Eva foi casada 2 vezes e nos anos de 1870, aos 22 anos, deu à luz a sua primeira filha chamada Sebastiana. Posteriormente, nasceram Joana e Lazara, todas as três filhas de diferentes homens. Segundo Waldemar Bento de Arruda, 90 anos, filho do escravizado Generoso Bento de Arruda, contemporâneo de Eva: “As filhas de tia Eva eram Dona Sebastiana, a Lazara e a Joana, todas nasceram no cativeiro, e elas eram filhas de pais diferentes. Tinha uma que era clara e outra escura. Isso acontecia naquela época, eram essas coisas”.
Um dia ao fazer doce, Eva deixou por acidente cair em sua perna uma panela de banha quente. Como afirma Waldemar Bento de Arruda, “E caiu banha quente na perna dela, da Tia Eva. Então ela ficou com aquele queimado sem cicatrizar, e ficou com mau cheiro a perna dela, porque eles eram muito enjoados, então ela ficou trabalhando fazendo sabão. Aí fizeram um ranchinho para ela lá no fundo do quintal da casa da fazenda.”
Segundo relatos, Eva contava aos seus descendentes histórias de sofrimento de seu cativeiro. Contava que em uma tarde, enquanto ela fazia sabão, o patrão, almoçava e depois cochilava. Havia uma preta que era muito estimada, o menino dela ficou doente e começou a chorar. O Senhor dela falou: Olha eu vou dar fim nesse menino, esse menino está muito manhoso dê um jeito nele! Quando eu estiver deitado dormindo eu não quero ouvir o choro desse negrinho! E a mãe do menino vivia ocupada no serviço. Mas teve um dia que o menino chorou e gritou: Mãe! Ele estava com gripe. O senhor levantou e mandou ela pegar o menino. Ela pegou o menino e ele pegou um chicote e falou com ela: Você me acompanha. Ela pegou o menino que chorava muito. Foram até o córrego. Ao chegar lá ele falou: Você pega esse negrinho e joga no córrego, não quero ouvir mais o choro desse negrinho. Ela abraçou o filho e se jogou no córrego junto com o menino, morreu ela e o menino. Aí o homem voltou sem graça para casa.
Eva nunca aceitou o sofrimento e a escravidão. Cansada de padecer com a violência, sempre pedia ajuda a São Benedito, que era muito devota. Ela pedia por um lugar onde pudessem viver em paz, longe da servidão, fazer sua casa, sua farinha, um lugar calmo para ela e todos que eram massacrados pela escravidão. Isso não demorou muito para acontecer.
Como sempre foi muito religiosa, Eva logo se tornou conhecida como rezadeira da Região. Com o passar dos anos, sua fama foi longe. Ela começou a ser conhecida como “Tia Eva” gerando uma clientela que a procurava em busca de tratamento para diversos males.
No ano de 1887, aos 49 anos, Tia Eva obteve sua carta de alforria, mas isso não significou melhora para a sua situação. Em 1888, com a promulgação da lei áurea, chegou ao fim a escravidão no Brasil, mas isso ficou só no papel. A promulgação da lei não trouxe melhoria na condição de vida da população negra. As fazendas continuaram a se manter com formas de exploração semelhantes ao período da escravidão. Tia Eva não podia deixar a fazenda, não tinha nada de valor comercial, nunca recebeu pagamento, estava estagnada, com uma queimadura na perna que não cicatrizava e com três filhas para criar.
Mesmo assim ela não desistiu da vontade de deixar aquela situação. Tia Eva continuou a trabalhar e a benzer os males de todos aqueles que a procuravam. Como agradecimento pelas as rezas e curas que promovia, começou a receber pequenos presentes ( bois, galinha e porco). Após curar a filha de um renomado fazendeiro, Tia Eva recebeu como agradecimento 4 bois e uma carreta. Com esses presentes Tia Eva poderia realizar seu sonho, deixar a fazenda Ariranha.
No ano de 1904, tia Eva iniciou os preparativos para a viagem e juntou-se com um grupo de negros de Uberaba que estavam migrando para o Mato Grosso. Esse grupo era composto por Maria Antônia, nascida na África, acompanhada de seus filhos Jerônimo Antônio Vida da Silva, Luís José da Silva e Maria Antônia de Jesus, que estava com seu esposo Custódio Antônio Nortório; José da Silva; Domingos Francisco Borges com sua esposa Maria Rita de Jesus; Dionísio Antônio Martins e sua esposa Luíza Joana Generosa de Jesus.
O grupo veio junto até Campo Grande, a viagem durou alguns meses, pois o transporte da comitiva era de carros de boi e no meio do caminho eles tinham que parar fazer roças em troca de alimentação da comitiva e até arrumavam serviços esporádicos. Homens roçando e amassando bois e as mulheres lavando roupa e faxina. Nada era fácil.
Ao tentarem cruzar os limites do Estado de Goiás para o Mato Grosso, foram obrigados a parar num Posto de Fiscalização para serem cadastrados. Porém, vários deles não possuíam sobrenomes e precisaram inventá-los. Os homens do grupo assumiram os sobrenomes de: Borges, Custódio, Silva, Martins, Souza e Pinto. Tia Eva, suas filhas e outras mulheres assumiram o sobrenome De Jesus.
No caminho para Campo Grande, na época conhecida Campo de Vacarias/MT, Tia Eva, ainda com a ferida na perna que não cicatrizava, fez uma promessa a São Benedito que se caso ele a curasse, construiria no lugar de moradia, uma igreja em homenagem ao santo. Em 1905, Tia Eva fundou sua tão sonhada Comunidade Negra. Em 1906, foi fundada a igrejinha de São Benedito, segunda igreja erigida na capital. Por causa dela, o lugar logo passou a ser conhecido em Campo Grande como São Benedito.
Depois de instalada, Tia Eva atuava como uma espécie de médica da comunidade. Sabia ler e escrever, o que fez ser procurada por inúmeras pessoas, tornou-se referência na comunidade, o que lhe proporcionou certo benefício financeiro. Até que em 1910 adquiriu uma terra de oito hectares que lhe custou 85 mil réis.
A história da Tia Eva reafirma a coragem e força das mulheres negras. Sua trajetória é exemplo de luta pela liberdade. Tia Eva se tornou ícone da resistência negra. Falar da história da Tia Eva é dar voz a contribuição negra na formação da capital campo-grandense. Contar sobre seus feitos é recontar a história das mulheres negras e do Estado de Mato Grosso do Sul.
Viva Eva Maria de Jesus! Viva Tia Eva!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Raio Negro DC - Série Netflix


Raio Negro estreou na Netflix no dia 16 de janeiro deste ano. E logo no primeiro episódio fica evidente que o super herói enfrentará o racismo como principal vilão. Ao contrário das outras séries já lançadas com super heróis da DC, Raio Negro tem elenco predominantemente negro. Além de iniciar contanto a história do protagonista pela sua aposentadoria. 
Raio Negro mostra a trajetória de um herói que escolheu a educação como meio de transformação de sua realidade. A série ainda está no começo, e é necessário aguardar para perceber como será desenvolvida a questão de gênero e sexualidade, mas já vale apena começar a assistir. 

Origem
Raio Negro é um dos primeiros heróis negros da DC Comics. Sua história se passa em Metrópoles, mesma cidade do Superman. E estreou nos quadrinhos em 1977, se tornando o primeiro herói negro a ter um título próprio na DC.