segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Enegrecer o femenismo!


É necessário discutir as limitações das perspectivas feministas eurocêntricas e universalistas que se demostraram incapazes de reconhecer a relevância da questão racial no combate das desigualdades econômicas e hierarquias de gênero. Ao negar a existência do racismo, diversos setores da sociedade acabam por reproduzir o mito da democracia racial. Com isso, silenciam as vozes de mulheres negras E contribuem com a perpetuação da situação de invisibilidade social.
     Há tempos, nós mulheres negras, percebemos que dentro dos diversos movimentos e coletivos feministas a chamada “sororidade” quase nunca se desdobra em solidariedade racial. Nem mesmo a "questão de classe", quando abordada isoladamente, é suficiente para explicar a situação da população negra. É importante perceber que as questões de gênero, raça e classe são estruturais e se intercruzam, deixando a mulher negra em situação de extrema vulnerabilidade. Já não é mais possível hierarquizar opressões.
       Ainda há muita resistência em perceber que a opressão de gênero e classe une mulheres brancas e negras, mas o racismo nos separa. É urgente que feministas brancas reconheçam seus privilégios para o feminismo realmente avançar. Lélia Gonzalez, resume muito bem nossas dificuldades: 

         “padeciam de duas dificuldades para as mulheres negras: de um lado, o viés eurocentrista do feminismo brasileiro, ao omitir a centralidade da questão de raça nas hierarquias de gênero presentes na sociedade, e ao universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental) para o conjunto das mulheres, sem as mediações que os processos de dominação, violência e exploração que estão na base da interação entre brancos e não-brancos, constitui-se em mais um eixo articulador do mito da democracia racial e do ideal de branqueamento. Por outro lado, também revela um distanciamento da realidade vivida pela mulher negra ao negar toda uma história feita de resistências e de lutas, em que essa mulher tem sido protagonista graças à dinâmica de uma memória cultural ancestral – que nada tem a ver com o eurocentrismo desse tipo de feminismo” 


Lélia acerta ao afirmar que para a mulher negra "a tomada de consciência da opressão ocorre, antes de tudo, pelo racial". Por isso torna-se fundamental Enegrecer o feminismo, dar voz ao feminismo negro.

*As citações da Lélia Gonzales e a inspiração para criar o blog foram retirados do artigo Mulheres em Movimento, escrito por Sueli Carneiro.