domingo, 18 de fevereiro de 2018

Negras na História: Você conhece Tia Eva?


Eva Maria de Jesus, Tia Eva.
Grande referência negra do Estado de Mato Grosso do Sul, foi fundadora da Comunidade Quilombola Eva Maria de Jesus, também conhecida como Comunidade Negra Tia Eva ou Comunidade da Igrejinha de São Benedito.
Eva nasceu em 1848 na fazenda Ariranha, em Jataí, Goiás. Escravizada, desde cedo, para os afazeres domésticos, Tia Eva desempenhou várias funções na casa grande da fazenda. Ainda jovem assumiu os serviços na cozinha onde sua função principal era fazer doces.
Eva cresceu em meio aos maus tratos e abusos sexuais recorrentes no período escravista. Eva foi casada 2 vezes e nos anos de 1870, aos 22 anos, deu à luz a sua primeira filha chamada Sebastiana. Posteriormente, nasceram Joana e Lazara, todas as três filhas de diferentes homens. Segundo Waldemar Bento de Arruda, 90 anos, filho do escravizado Generoso Bento de Arruda, contemporâneo de Eva: “As filhas de tia Eva eram Dona Sebastiana, a Lazara e a Joana, todas nasceram no cativeiro, e elas eram filhas de pais diferentes. Tinha uma que era clara e outra escura. Isso acontecia naquela época, eram essas coisas”.
Um dia ao fazer doce, Eva deixou por acidente cair em sua perna uma panela de banha quente. Como afirma Waldemar Bento de Arruda, “E caiu banha quente na perna dela, da Tia Eva. Então ela ficou com aquele queimado sem cicatrizar, e ficou com mau cheiro a perna dela, porque eles eram muito enjoados, então ela ficou trabalhando fazendo sabão. Aí fizeram um ranchinho para ela lá no fundo do quintal da casa da fazenda.”
Segundo relatos, Eva contava aos seus descendentes histórias de sofrimento de seu cativeiro. Contava que em uma tarde, enquanto ela fazia sabão, o patrão, almoçava e depois cochilava. Havia uma preta que era muito estimada, o menino dela ficou doente e começou a chorar. O Senhor dela falou: Olha eu vou dar fim nesse menino, esse menino está muito manhoso dê um jeito nele! Quando eu estiver deitado dormindo eu não quero ouvir o choro desse negrinho! E a mãe do menino vivia ocupada no serviço. Mas teve um dia que o menino chorou e gritou: Mãe! Ele estava com gripe. O senhor levantou e mandou ela pegar o menino. Ela pegou o menino e ele pegou um chicote e falou com ela: Você me acompanha. Ela pegou o menino que chorava muito. Foram até o córrego. Ao chegar lá ele falou: Você pega esse negrinho e joga no córrego, não quero ouvir mais o choro desse negrinho. Ela abraçou o filho e se jogou no córrego junto com o menino, morreu ela e o menino. Aí o homem voltou sem graça para casa.
Eva nunca aceitou o sofrimento e a escravidão. Cansada de padecer com a violência, sempre pedia ajuda a São Benedito, que era muito devota. Ela pedia por um lugar onde pudessem viver em paz, longe da servidão, fazer sua casa, sua farinha, um lugar calmo para ela e todos que eram massacrados pela escravidão. Isso não demorou muito para acontecer.
Como sempre foi muito religiosa, Eva logo se tornou conhecida como rezadeira da Região. Com o passar dos anos, sua fama foi longe. Ela começou a ser conhecida como “Tia Eva” gerando uma clientela que a procurava em busca de tratamento para diversos males.
No ano de 1887, aos 49 anos, Tia Eva obteve sua carta de alforria, mas isso não significou melhora para a sua situação. Em 1888, com a promulgação da lei áurea, chegou ao fim a escravidão no Brasil, mas isso ficou só no papel. A promulgação da lei não trouxe melhoria na condição de vida da população negra. As fazendas continuaram a se manter com formas de exploração semelhantes ao período da escravidão. Tia Eva não podia deixar a fazenda, não tinha nada de valor comercial, nunca recebeu pagamento, estava estagnada, com uma queimadura na perna que não cicatrizava e com três filhas para criar.
Mesmo assim ela não desistiu da vontade de deixar aquela situação. Tia Eva continuou a trabalhar e a benzer os males de todos aqueles que a procuravam. Como agradecimento pelas as rezas e curas que promovia, começou a receber pequenos presentes ( bois, galinha e porco). Após curar a filha de um renomado fazendeiro, Tia Eva recebeu como agradecimento 4 bois e uma carreta. Com esses presentes Tia Eva poderia realizar seu sonho, deixar a fazenda Ariranha.
No ano de 1904, tia Eva iniciou os preparativos para a viagem e juntou-se com um grupo de negros de Uberaba que estavam migrando para o Mato Grosso. Esse grupo era composto por Maria Antônia, nascida na África, acompanhada de seus filhos Jerônimo Antônio Vida da Silva, Luís José da Silva e Maria Antônia de Jesus, que estava com seu esposo Custódio Antônio Nortório; José da Silva; Domingos Francisco Borges com sua esposa Maria Rita de Jesus; Dionísio Antônio Martins e sua esposa Luíza Joana Generosa de Jesus.
O grupo veio junto até Campo Grande, a viagem durou alguns meses, pois o transporte da comitiva era de carros de boi e no meio do caminho eles tinham que parar fazer roças em troca de alimentação da comitiva e até arrumavam serviços esporádicos. Homens roçando e amassando bois e as mulheres lavando roupa e faxina. Nada era fácil.
Ao tentarem cruzar os limites do Estado de Goiás para o Mato Grosso, foram obrigados a parar num Posto de Fiscalização para serem cadastrados. Porém, vários deles não possuíam sobrenomes e precisaram inventá-los. Os homens do grupo assumiram os sobrenomes de: Borges, Custódio, Silva, Martins, Souza e Pinto. Tia Eva, suas filhas e outras mulheres assumiram o sobrenome De Jesus.
No caminho para Campo Grande, na época conhecida Campo de Vacarias/MT, Tia Eva, ainda com a ferida na perna que não cicatrizava, fez uma promessa a São Benedito que se caso ele a curasse, construiria no lugar de moradia, uma igreja em homenagem ao santo. Em 1905, Tia Eva fundou sua tão sonhada Comunidade Negra. Em 1906, foi fundada a igrejinha de São Benedito, segunda igreja erigida na capital. Por causa dela, o lugar logo passou a ser conhecido em Campo Grande como São Benedito.
Depois de instalada, Tia Eva atuava como uma espécie de médica da comunidade. Sabia ler e escrever, o que fez ser procurada por inúmeras pessoas, tornou-se referência na comunidade, o que lhe proporcionou certo benefício financeiro. Até que em 1910 adquiriu uma terra de oito hectares que lhe custou 85 mil réis.
A história da Tia Eva reafirma a coragem e força das mulheres negras. Sua trajetória é exemplo de luta pela liberdade. Tia Eva se tornou ícone da resistência negra. Falar da história da Tia Eva é dar voz a contribuição negra na formação da capital campo-grandense. Contar sobre seus feitos é recontar a história das mulheres negras e do Estado de Mato Grosso do Sul.
Viva Eva Maria de Jesus! Viva Tia Eva!

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